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O EFEITO ESTUFA E A BIODIVERSIDADE
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Normalmente o termo efeito estufa é utilizado com uma conotação negativa,
indicando que algo de errado está acontecendo com a atmosfera. No entanto, a
vida na terra só é possível por causa desse efeito. Para se ter uma idéia da
importância do efeito estufa, pode-se comparar a Terra e a Lua. Enquanto a
camada de ar que envolve a Terra se mantém entre extremos aproximados de -10ºC
e 50ºC, a Lua, que até onde sabemos não possui seres vivos, apresenta
extremos de -150ºC a noite e 100ºC na superfície exposta ao Sol. Estas
diferenças existem a despeito do fato de que ambos os corpos celestes se
encontrarem à mesma distância do sol. Estas diferenças existem porque a
terra possui uma camada de gases capazes de absorver parte da radiação
emitida pelo Sol. De toda a radiação que chega à Terra, apenas a luz visível
e parte das ondas de rádio atingem a superfície da terra sem interferência,
enquanto a luz ultravioleta é absorvida na estratosfera, provocando seu
aquecimento. A energia absorvida faz com que as moléculas de certos gases
vibrem, promovendo produção de calor o qual em parte acaba sendo reemitido
para o espaço e em parte é responsável pela manutenção dos sistemas vivos na
superfície terrestre. Este é o efeito estufa benéfico, sem o qual a vida na
Terra seria impossível.
Por outro lado, quando se fala do lado mau do efeito estufa quer-se dizer
que o aumento artificial, e desproporcionalmente rápido na concentração de
certos gases que provocam este efeito (como o CFC, óxido nítrico, ozônio e o
CO2, por exemplo) vem provocando um aumento de temperatura da atmosfera.
Isto pode provocar mudanças climáticas significativas para a manutenção da
vida como a conhecemos. De acordo com simulações de computador, alterações
de temperatura que para nós são relativamente pequenas (p.ex. 1 ou 2 graus
centígrados a mais na média mundial) poderão produzir alterações climáticas
drásticas, devido principalmente à possibilidade de descongelamento de parte
da água que se encontra em forma de gelo nos pólos. A presença de maior
proporção de água líquida na atmosfera não somente aumentaria os níveis de
água nos oceanos, mas também faria com que os regimes de chuvas de várias
regiões se alterassem. Paralelamente, os próprios efeitos do aumento de
temperatura fariam com que os movimentos de massas de ar também se
alterassem e inclusive influenciassem os regimes de chuvas.
Este cenário de mudanças climáticas já ocorreu diversas vezes em nosso
planeta e dados obtidos a partir de registros fósseis, indicam que houve
grandes mudanças no conjunto de seres vivos do planeta (ou seja, na
biodiversidade).
Os maiores focos de diversidade biológica em nosso planeta encontram-se nas
regiões costeiras e nas regiões que abrigam florestas tropicais.
A biodiversidade marinha e costeira forma um conjunto mais amplo de biomas
do planeta, cobrindo cerca de 71% da superfície terrestre. As regiões
costeiras estão entre os ecossistemas naturais mais produtivos (estuários,
lagunas, recifes de coral etc). A diversidade biológica marinha é comparável
às florestas tropicais terrestres. Alguns autores inclusive comparam os
biomas marinhos com o terrestre dizendo que o primeiro é equivalente a uma
floresta tropical submersa.
Em um cenário onde o aumento nos gases do efeito estufa provoquem de
mudanças ambientais muito rápidas, o aquecimento das águas degradaria os
ecossistemas marinhos, afetando diversas espécies de diferentes formas. As
alterações nos níveis do mar com uma freqüência mais rápida do que muitos
dos biomas poderiam suportar, provocariam estresse em muitos dos organismos
sensíveis à temperatura, tais como os corais, causando a morte e favorecendo
o estabelecimento de doenças. Com a perda dos corais por exemplo, várias
comunidades que vivem a eles associadas e/ou deles dependem e incluem um
grande número de espécies animais e vegetais, correriam o risco de
desaparecer, Isto porque não teriam tempo para se adaptar às novas condições
climáticas. O efeito estufa gerado por atividade humana pode levar à perda
de espécies e portanto à diminuição da biodiversidade.
No caso das florestas tropicais, e efeito seria muito similar, mas por vias
distintas. No ambiente terrestre, uma das alterações mais importantes seria
na distribuição da água na superfície, determinada pelos movimentos de massa
de ar. Há previsões que indicam aumentos de temperatura na Região Amazônica
da ordem de 3 a 8ºC associadas com uma diminuição significativa na
precipitação. Essas previsões sugerem que algumas regiões da Amazônia
poderiam apresentar clima similar ao de um deserto. Como nos ecossitemas
marinhos, se no ambiente terrestre as mudanças forem excessivamente rápidas,
várias espécies não conseguiriam migrar com rapidez suficiente para
encontrar um ambiente adequado para sua adaptação. Essas espécies correm,
portanto, o risco de desaparecer, o que novamente significa perda de
diversidade biológica. Alguns autores acreditam que os efeitos mais
drásticos nas florestas seriam sobre as árvores, pois muitas apresentam
ciclo de vida longo e estão muito bem adaptadas. Espécies com essas
características, não teriam tempo de encontrar um novo habitat.
Assim, o principal mecanismo de perda de diversidade biológica seria a perda
de habitats gerada pelo desaparecimento de certas espécies e
consequentemente de várias das espécies associadas à primeira.
Considerando a biodiversidade como um conjunto de genomas que gera designes
distintos, a perda de espécies significa a perda irrecuperável de designes
não somente de espécies, mas também de associações de espécies em níveis de
complexidade mais altos, como ecossistemas e comunidades.
Com a perda das árvores, que são os principais organismos captadores de
carbono no planeta, mais CO2 ficaria livre na atmosfera, aumentando ainda
mais a temperatura e piorando o problema.
Como o mesmo raciocínio é válido para o ambiente marinho, bem como para
biomas em regiões temperadas do planeta, a perda de organismos
fotossintetizantes levaria à sobra de CO2. Isso o que levaria a mais
mudanças climáticas e a partir de certo ponto, o sistema pode entrar em um
ciclo irreversível de perda de diversidade biológica. Assim, somente algumas
espécies mais flexíveis com relação à adaptação, permaneceriam no sistema.
Vale lembrar que tudo isso ainda é bastante especulativo, pois ainda não
conhecemos o suficiente sobre os mecanismos de adaptação de mais de 95% das
espécies de nosso planeta. O que sabemos hoje é muito pouco perto do que há
para saber sobre a biodiversidade e por isso as previsões correntes poderiam
estar erradas tanto para o lado positivo quanto para o negativo. Se as
previsões estiverem certas, não haverá tempo hábil para conhecermos o
necessário sobre a biodiversidade até cerca de 2050, quando a concentração
de CO2 será o dobro da de hoje. Assim, não parece sábio arriscar e continuar
produzindo gases do efeito estufa.
Marcos S.
Buckeridge |
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